segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pampulha e Caminhar...





Sábado, 4 de setembro de 2010. Acordar no Hostel. Encontrar uma portuguesa e uma norueguesa que falavam surpreendentemente bem português. Faziam arquitetura; uma formada, outra estagiária. Trabalhavam em alguma agência em São Paulo. Haviam dito que iriam para Inhotim no domingo. Disse que tal - ir para Inhotim no domingo - também estava nos meus planos. Combinamos de ir conjuntamente. Nos despedimos. Dia de ficar no Hostel e Savassi ou conhecer Belo Horizonte?


Existem escassas opções em Belo Horizonte em matéria de turismo. É uma cidade de bares e restaurantes, festas, bares e nada de mar e água. No sábado pensei em ir em algum lugar que me concentrasse atenções. Pensei na Pampulha depois de dar-me conta de ser aquele local o esboço inicial de tudo o que Oscar Niemayer um dia veio a ser na vida. Pois bem. Um pouco de história não faz mal a ninguém.

A Wikipédia informa que a Pampulha é uma região administrativa regional de Belo Horizonte localizada sob as coordenadas 19° 51' 44" S 43° 58' 14" O, sendo a lagoa artificial de mesmo nome uma das principais atrações turísticas dessa cidade. Nela localizam-se os estádios Governador Magalhães Pinto (Mineirão) e Jornalista Felipe Drummond (Mineirinho) e diversos clubes. Anualmente é disputada a Volta Internacional da Pampulha, na Avenida Otacílio Negrão de Lima, que contorna a lagoa. Também na virada do ano acontece o maior show de fogos do Estado, reunindo cerca de 300 mil pessoas no entorno. A região também é sede do campus da UFMG, da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte e do Aeroporto da Pampulha.

Mas isso tudo é outra história. O que eu conheci mesmo foi a Orla. A Orla da Pampulha. Lá existe a tal da lagoa artificial construída no início da década de 1940 quando o prefeito era Juscelino Kubitscheck. Quem projetou o entorno foi Niemayer e inaugurou-se oficialmente em 1943, pleno auge da Segunda Grande Guerra Mundial.


Caminhando pela orla da Pampulha, logo depois de passar pela Casa do Baile, percebi duas coisas que me vinham a mente como o ímpeto de um trovão: a primeira delas diz respeito ao fato de que uma pessoa humana com pés e calcanhares razoáveis deveria ser muito louca de caminhar toda aquela distância de tênis sem amortecedor. No mínimo, um amortecedor. Então pensei em pessoas que usam All Star ou até mesmo chinelos. Dei-me conta de que seria humanamente impossível caminhar toda aquela distância, naquele calor insuportável, sem um tênis com amortecedor. Por um momento me senti terrivelmente feliz por estar usando um tênis com amortecedor. Como quando está chovendo e você tem um tênis impermeável, incapaz de fazer a maldita água da chuva entrar; coisas insubstituíveis da vida. Sensações insubstituíveis.

Mas é claro que isso se trata de uma questão de gosto pessoal E alguns minutos depois eu aprendi essa lição.

Os amortecedores do meu tênis me fizeram pensar na sede que estava sentindo e na necessidade de comprar água. Precisava sacar dinheiro com certa urgência. Encontrei um posto de informações turísticas; nele, um acessor disse-me para me dirigir até um super-mercado Carrefour – possivelmente tenha sido as informações que recebi, desde que cheguei, com maior perfectibilidade – nas redondezas e sacar num caixa eletrônico do Banco do Brasil. Deve ter sido o Carrefour mais luxuoso que já frequentei: tinha serviço de manobrista. Nunca vi isso em nenhum super-mercado em parte alguma. A área era evidentemente de alta-classe média, mas, mesmo assim, oferecer manobrista em super-mercado é coisa que você não prevê facilmente.

Embora o atendimento geral do estabelecimento fosse um tanto quanto desejável – tomei um espresso e duas águas com gás – dali saí satisfeita; pelo menos tinha água, tênis com amortecedor, cafeína na corrente sanguínea e, se fosse desistratar no meio da minha longa caminhada pela orla, minha mochila estava equipada com dinheiro e água. Sensações insubstituíveis, diria.

Caminhando mais um pouco encontrei , por uma das coincidências da vida, as duas meninas que estavam no meu Hostel – e que tinham combinado de ir até Inhotim comigo domingo - e que haviam sido acordadas pela mesma pessoa que me acordou de modo indesejável - em outro momento eu falo sobre isso. Conversamos brevemente: elas já tinham ido visitar a tal da Igreja que o Niemayer havia construído, mas eu ainda tinha que ir lá; disseram-me que iriam almoçar em um restaurante chamado Redondo e combinamos de nos encontrarmos nesse local algum tempo depois. Eu iria até a Igreja e voltaria ao restaurante.

Meus quinze minutos na Igreja de Niemayer

Preveja uma Igreja construída na década de 40; primeiro, Niemayer é ateu e deve ter sido uma grande dificuldade a ele mesmo ter construído uma Igreja, seja qual for o aspecto que ele pretendesse que ela tivesse. Pelo menos é isso que imagino. A Igreja é minúscula. Deve ter feito a Igreja prevendo-se pela fé dele em Igrejas: inexistente. Deveria se chamar de Capela, pelo tamanho. Tem as formas arquitetônicas básicas, as sensações básicas de uma Igreja: cheiro de vela, turistas tirando fotos, contribuições financeiras sempre bem-vindas, esse tipo de coisa que apenas Igrejas, em qualquer parte do mundo, te oferecem. Comprei um chaveiro para minha avó, com uma oração de um lado e a imagem de um Santo de outro. Acho que ela vai gostar do presente.

Do que pude perceber - uma igreja com ondas desenhadas por tudo - no mínimo a Igreja Católica não deve ter ficado nem um pouquinho feliz com a delicadeza arquitetônica do Niemayer. Nem um pouquinho.

Tirei todas as fotos necessárias – porque em qualquer lugar que você vá no Brasil há sempre uma Igreja a ser visitada (Ouro Preto ganha o Oscar com as suas cinquenta e poucas Igrejas de todas as espécies e gêneros possíveis) e voltei ao Redondo. Chegando lá, encontrei as meninas e optei por pastéis de Angu com Carne. Confiei: angu não é uma coisa ruim, é apenas imaginação minha depois de uma experiência desagradável em 2006.

Pois bem, os pastéis eram terríveis. Angu tem gosto de milho misturado com polenta e sabe-sabe-lá deus mais o que. As meninas também não gostaram. Conversamos bastante sobre a vida em geral. Pessoas agradáves demais, dessas raras, eu diria.

Mas então, em algum momento do meu pós-almoço, tomando água e café eu olhei para o chão e vi uma imagem assustadora: as meninas estavam usando All Star e Chinelos! Sim, acreditem! Eu disse tacitamente que escreveria isso no meu blog. Que era uma coisa muito inacreditável ver algo do gênero. Que era humanamente impossível que isso estivesse acontecendo. Que elas deveriam estar com os pés mortos. Tirei fotos. Veja-a abaixo. Rita começou a falar que havia visto algo muito parecido com cachorros, que não eram patos, mas que deveriam ser cachorros de alguma espécie rara. Em certo momento eu os vi: inacreditavelmente, se não eram patos, eram capivaras. E haviam MUITAS capivaras pela Pampulha.

Disseram-me que se sentiam bem com o que usavam. Acreditei. Esse tipo de coisa sempre se trata de uma questão de gosto pessoal.

Depois de um algum tempinho, voltamos para a Casa do Baile, a fim de fazer o retorno e ir até o museu que há décadas atrás era um Cassino.

Esse tal de Cassino, na minha imaginação suscetível, me pareceu, logo de cara, vindo daquele filme “O Iluminado”, do Stephen King (Veja foto abaixo). Em algumas partes me lembrou também o Itamaraty ou qualquer outro órgão governamental de Brasília, com seus espelhos e escadas (mas numa dimensão bem menor). Mas, numa parte um tanto quanto radical, me lembrou meu querido David Lynch e seu apreço por veludos. Era um cassino de veludos. Você apenas tinha acesso ao salão principal passando por um corredor de veludos (Veja foto abaixo). Sim, seria impossível não pensar em Twin Peaks e O Iluminado.

O Cassino, hoje, é um museu. Parece abandonado e lembra tem a atmosfera da década de setenta. Mas lembra muito mais um filme do Lynch do que qualquer outra coisa.

Foi nosso último ponto de encontro. Caminhamos o suficiente para um dia. E tomamos sol suficiente. Na parada do ônibus comprei duas Brahmas. Tomamos cerveja e nos desencontramos. Fui ao Pátio Savassi estudar e tomar café ; elas se foram para alguma festa. Fim do sábado. Pensei em ir ver Karatê Kid 3. Dei-me conta de que poderia fazer isso segunda pela noite. Li um pouco no café e voltei ao Hostel. Apaguei, diga-se de passagem.




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Um comentário:

  1. Gostei do post, das fotos e da referência a Lynch.

    E o Cassino sem dúvida tem um visual que em uma primeira olhada não pareceria um auditório de museu tanto quanto um cenário excelente para o "ponto de discussão" de uma trama cinematográfica; onde o público assiste a entrevista com os membros do elenco, com os personagens; onde se pode dançar ao som de Badalamenti ou receber da prima da personagem-chave dicas sussurradas em som desconexo. Um lugar bonito, sem dúvidas.

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